É compreensível que uma das principais imagens criadas para representar o mais profundo de nossa interioridade seja a de uma escuridão profunda, de um negro espesso como a noite num pântano, um lugar onde se tem dificuldade para respirar. Um lugar no qual predomina a ignorância, a solidão e, por que não dizer, o pecado. Pascal, um grande cristão, matemático insuperável, filósofo sutil, mesmo ele, quer dizer, principalmente ele, compôs em palavras quadros fantasmagóricos de nossa natureza mais íntima, de nossa verdade mais humana e solitária. Ele tinha de onde partir para enxergar essa natureza corrompida – ou aonde chegar, pelo menos: de lá, do além terra, além mar, além natureza, e, mais importante, além carne humana. Um homem que poderia inflar sua vaidade e ser propositalmente louco diante dos outros homens por sua genialidade necessitava se sentir ínfimo, desprezível, para que sua luz mesma pudesse finalmente resplandecer, com toda a dignidade que, mesmo se um dia não a teve, pelo menos a herdou em parte de uma época em que o homem ainda não pecara. Por isso fugimos dessa visão pela diversão e paliativos semelhantes… fugimos de nós mesmos.
Nossa ignorância, nesse caso, é castigo, e posso sempre tentar buscar uma redenção naquilo que me supera, que tem o poder para isso – o que, por si, foi visualizado das mais diversas formas, a religião institucional sendo, claro, um dos mais influentes e nefastos espectros com que temos convivido. Por outro lado, a ignorância de si mesmo e das coisas pode proporcionar espetáculos grotescos como o egocentrismo, ou como se chame a fixação de alguém em si próprio, “interioridade e exterioridade” (mais ou menos: como eu olho para mim mesmo e como os outros olham para mim mesmo); em maior ou menor grau, temos todos uma fixação por esse similar de ectoplasma que é o eu, sofremos por marcas que teriam sido deixadas nele e que às vezes são retomadas e retrabalhadas para sempre. É corrente por entre as bocas que permanecer muito em si mesmo pode tornar o mundo pesado, que se nos levamos demais a sério perdemos as melhores coisas da vida, que não somos nada se não estamos com os outros… e, como tudo tem uma causa, os clichês também. Eles recolocam problemas e soluções que nunca abandonaram o pensar humano, e se digo humano, não ocidental, ou outra especificidade qualquer, é porque já pressuponho aqui que tais perguntas e respostas têm formulações das mais diversas naturezas, com as mais diversas pretensões: seja se pergunto pela possibilidade do movimento, seja se busco a anulação dele enquanto desejo, pergunto por algum sentido das coisas que me façam compreender (ou ignorar mais alegremente) e desenrolar melhor minha vida e minhas conquistas. Nesse caso, quero dizer que mesmo minimamente formulado pela consciência e pela linguagem, o sentimento de que somos apenas em relação a algo maior nos faz tomar as mais contraditórias posturas, em muitas ocasiões assassinas umas das outras.
Ir além do próprio ego é, pois, uma espécie de diretriz múltipla para nossas vidas e de alguma maneira, em algum grau, condição para o mínimo de leveza na vida. O que vejo, como contrapeso disso, melhor, como subterrâneo a isso, que sempre está a cavar outras tocas, é o retorno do ego no cotidiano mesmo, nas relações mais banais que travamos, assim como nas mais relevantes: em outras palavras, o poder que tem de nos mover as imagens que temos de nós mesmos e que queremos que tenham ou não de nós é real, efetivo, sensível (caso nos esforcemos um mínimo para notá-lo), em maior ou menor grau, mas sempre denota ignorância, e uma que em geral tenta se suprir com ainda mais ignorância. No espectro negativo, ou seja, naquele que para mim mais disfarça a ignorância e mais a torna um peso é a contemporânea (sem um dia de nascimento específico), pela velocidade mesma de tudo o que nos atravessa, pela economia de mercado, pela imaginalização de tudo, pelo excesso de pessoas no mundo… etc – embora isso não seja resumo de uma tragédia, porque o homem continua homem em todas as suas nuances, das mais “vis” às mais “notáveis”, tanto que permanecemos políticos da mesma forma que permanecemos sexuados, apenas necessitamos disso. E como, desde sempre, até condição para a existência do ego, somos todos seres singulares – seres que, tomados por uma certa perspectiva, não podem ser reduzidos nem a um conhecimento completo nem a outra coisa qualquer -, respondemos singularmente à questão: o que quero de mim mesmo? E o que quero vejo em mais alguém da forma que quero em mim? Trata-se, nesse caso, do molde que percebemos e fazemos do eu, e, em última instância, do molde do resto da matéria existente no planeta. Pois, antes de inserirmos qualquer cisão entre o que está em mim e o que está fora de mim, é do mesmo estofo que todos somos feitos, mesma matéria, tão sutil quanto ela possa ser. O que não deixa de ser interessante: na visão de mundo que distinguia o que é imutável – e se localizava no céu sua morada – e o que perece – ou o mundo sublunar, havia uma distinção essencial entre tais esferas que as tornava incomunicáveis do ponto de vista da causalidade que depois seria chamada de física. Para que algo de nossa interioridade e do que percebemos dela fossa realmente distinto do resto do que existe, uma parte pelo menos dela haveria que não poderia participar dos eventos que perpassam as coisas e a nós. Uma alma, um tipo particular de espírito, uma consciência tipo A, original e originária, um Eu real e independente, de fato, do que imaginamos dele, porque sujeito a (ou sujeito de) uma outra realidade exterior a nós. A partir disso, outros desdobramentos surgem e são incorporados de muitas outras formas.
E se esse eu não existe, como creio que não exista, o que podemos, repito, exigir de nós mesmos que sejamos, a que queremos que esse eu apenas imaginado, moldado em argila sempre úmida, corresponda? Quais finalidades acabamos por impor a ele? Admito que esses questionamentos, pelo menos como estão colocados aqui e sem um desenvolvimento detalhado, rebuscado, fundamentado, são reducionistas, por mais que em palavras eu ainda busque ressaltar multiplicidades. Só que um texto também é feito de argila úmida. Em outras ocasiões, lembro de focar alguns aspectos que me levam à fúria quando percebo o quão esse Eu é inventado por alguém que não sou eu, o quanto sou iludido todo dia nos menores sentidos que crio, ou melhor, penso criar, e me vem o sentimento de impotência em saber o que poderia ser esse eu que, já que não existe, tem de ser criado. Outras vezes, é possível que me encare com tal força que esse eu não seja nada além de puro gozo de uma força minha indescritível. Ainda em outras, uma mescla desses focos, sem respostas… em todas essas esferas, de uma forma ou de outra, é necessário que eu me saiba, principalmente me sinta, feito da mesma coisa de que o resto do “existir” é feito, sem que eu possa ser uma “interrupção” em toda a homogeneidade do que existe. O que me dá a singularidade, então, senão o fato de ser uma atividade específica, que processa o seu entorno – e se processa é porque são da mesma matéria – de um ponto específico que é só seu, comunicável porque é comum mas nunca o mesmo de outro? Em suma, a história dos meus afetos, todos, na ordem em que ocorreram e ocorrem, com essa conformação toda especifica, apenas diz respeito a mim, assim como pode ser dito da singularidade de todos. O mais difícil, porém, nunca foi reconhecer essa espécie de singularidade, pois, mesmo que venham a admiti-la em toda a sua mobilidade, talvez por isso mesmo sintam a vontade de procurar algo que nos defina diante de tudo o que é efêmero, que nos dê a dignidade merecida de um “ser humano”. Tal sentimento, o de que nada somos se não tivermos uma essência fixa, cujo suporte está além de nós, um sentido para o qual nossa excelência aponta, se não é o mais comum entre os homens, é o que mais cria razões para viver, para prosseguir, uma pátria, um povo, um deus, etc, algo que preencha nosso tempo. Assim, qual a força que poderia ter, como suporte de nossos sentidos, algo que tem como marca o devir e como finalidade…. nada?
A imagem de si não pode ser verdadeira na medida em que corresponda a algo de real, mas na medida em que é atual e nos faz tomar atitudes concretas. Na medida em que vai além da imagem de si e se torna querer para si, pois isso faz o ser humano ser movimento e vontade, morrer ou matar por algo. Só que, a partir de algumas configurações específicas, pode significar querer o impossível, o impossível de obedecer a deus, o impossível do amor, o impossível da saciedade, o impossível de algumas facetas da civilidade, e uma vida nunca espera até que cada um descubra o quão impossível são algumas de suas vontades. Alguns até parecem entrever a impossibilidade de suas ambições, mas por essa razão mesmo fazem o que for necessário antes que tudo acabe, exploram outros homens (um leque que vai da força de trabalho à fé), não sossegam até expandir ao máximo suas crenças, por estas destruindo a cabeça até dos próprios filhos. Com o passar do tempo e de uma história humana, as exigências feitas a cada um mudaram, tornaram-se gradualmente mais econômicas (bem, a quantidade de carcaças que um caçador leva para casa também são questão de economia…) e simultaneamente mais complexas: hoje, onde a maioria das coisas é apenas imaginada e nunca sabida ou vivida, exige-se, justamente, a melhor das formações, o melhor dos comportamentos (seria mais engraçada, se não chegasse a assustar, a enormidade de balelas morais que são pregadas atualmente), a melhor das mulheres, etc, etc. Quase nada é dado, repito, tudo é exigido, e pior, se crê – e logo se tenta resolvê-la – vastamente nessa exigência, ou pelo menos na legitimidade delas.
Essas questões levam, claro, a outras, contudo há um ponto específico em que essa complexidade é expressa no tempo, ou, pelo menos, nas noções que temos e podemos ter sobre o tempo. Se é possível impor que todos privilegiem uma determinada perspectiva de sua vida presente, digamos assim, é igualmente possível que determinem que perspectiva se tenha em relação ao passado próprio, e não menos ao futuro. Em outras palavras, quem tenta controlar nossa vida no presente, se vê obrigado a determinar as perspectivas que devemos ter de nosso passado (o singular, na figura de nossa história de vida, ou coletivo, nas figuras da história do país, na história geral, etc) e de nosso futuro, do que devemos produzir e fazer. Terapias e religiões são criadas em cima disso. Ao contrário disso, ou como alternativa de postura diante das coisas, há quem percebe o presente, senão como um campo aberto absolutamente, como absoluta possibilidades de aberturas, e assim pode incorporar seu passado e seu futuro à sua atividade atual, tal qual a construa dia a dia, entre altos e baixos. Só que acredito ver no passado uma coisa especial, nem precisaria complementar que especial no modo como tratamos o passado; pois, de certa forma, se o meu passado é o que me trouxe aqui, ele também não passa de um sintoma do que somos agora, porque sempre fui agora. Me pego dando atenção a vários aspectos do meu passado, que à simples lembrança me fazem rir ou me arrepiam os pelos, às vezes anos a fio sem nenhuma história a contar a não ser a de que eu estava ali; nunca vontade de estar ali novamente, nunca vontade de não ter estado ali. Porém nunca indiferença, a ponto de o que faço com ele ser determinante para que eu continue a fazer o que quero agora. A importância dessa relação com o vivido é par da importância que os afetos têm no que se entende por vida e, no caso a vida humana, a complexidade desses afetos é o que dá a sua consistência, sua profundidade, e é, com certeza, essa complexidade o único pano de fundo para qualquer valor que já foi ou venha a ser criado. Todo conhecimento de si, que seja possível e útil, nunca deixa de ser uma criação de si: a possibilidade de criar um mundo novo, um novo modo de se relacionar com as coisas, envolve simultaneamente a possibilidade da criação de si, e compreende as mesmas condições, quais sejam, paciência, alegria, coragem, desprezo por si e pelos outros, e a possibilidade, se convier, de transformar o desprezo em riso. E não poderia ser diferente, visto que conhecer a si mesmo e ao mundo constitui um mesmo processo.
Em que medida escolhemos privilegiar um gênero a outro de vivências? Nesse caso, direi eu, que a esses campos não cabe a medida, porque o instinto não suporta quantificação alguma… posso ir até o infinito, e sempre que encontrar um terreno específico pertencente à escolha, percebo por baixo já outro ato inconsciente, que me faz querer privilegiar isso e não aquilo. O que se abre, no mínimo, é a pergunta pela natureza dessa escolha que privilegia, e que ao fazê-lo esboça com cores cada vez mais fortes o quadro da singularidade; enfim, o conjunto do que privilegiamos na vida, em ato e não como princípios abstratos inúteis, é o que mais se aproxima de uma noção de personalidade. As questões da responsabilidade do eu só fazem sentido se colocadas em outros patamares, como a maneira de se exercer as forças individuais e coletivas (o que passa pelos interesses individuais e coletivos), por exemplo; ainda de outras maneiras, contudo bem longe do que mais estamos acostumados a fazer a milhares de séculos – entre pensamentos “orientais” e “ocidentais”, o cristianismo ainda é o principal avatar da responsabilidade destrutiva, principalmente se pensamos que muitas de suas nuances hoje nem se apresentam mais como cristianismo. Alguns resquícios de um eu culpado cristão pulam às vezes de mim e saltitam na minha frente, quando antes eu nem os percebia.
São as coisas fora de nós, que lá estiveram ou lá ainda estão, que nos asseguram nossa própria existência – não porque nada em nós nunca remeta a nós próprios, mas porque, a fundo, não existe essa separação, porque o alcance do nossos gestos se dão através de sua força e não de sua pele, porque talvez se pode, enfim, dar um passo maior que as pernas.
Daniel.
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