O Menor Poema Do Mundo

•4 04UTC maio 04UTC 2011 • Deixe um comentário

S E N T E – S E

S Ó.

É Sempre Assim

•4 04UTC maio 04UTC 2011 • Deixe um comentário

É sempre assim:
A mesma tensão
O mesmo texto
Escrito com as mesmas palavras
Pelas mãos do mesmo homem
Poderia ser diferente,
Mas o código é sempre o mesmo.
Mudam as palavras a direção do dis-
Curso…
A revolta é a mesma no interior do mesmo homem-poema.

A Noite Caiu Em Você

•4 04UTC maio 04UTC 2011 • Deixe um comentário

A noite caiu em você
Lá do outro lado
Onde vagam os mortos
Enterrei meu fígado e o teu coração
Posso beber qualquer coisa
Já não podes sentir mais nada
E é tudo verdade
Raro lampejo de felicidade alada
Para amar o abismo é preciso ter asas.

O Céu Clareia Quando Anoitece

•4 04UTC maio 04UTC 2011 • Deixe um comentário

O céu clareia quando anoitece
Atravessas o horizonte cruzando blocos de mentiras
Para dizer a verdade
Nenhum clarão se opõe contra teus passos.
No entanto,
Um breu de treva turva raiva
Quando desapareces.

Madrugada de 19/05/09 no DCE da usp.

Apesar de sermos educados

•24 24UTC janeiro 24UTC 2011 • Deixe um comentário

Com certeza, ainda que alguns queiram ignorá-lo, passamos toda a vida em um processo que forma, que conduz por um caminho, sem finalidade real ou algo que se assemelhe. Alguns o ignoram, digo, na medida em que creem ser a educação um estágio pelo qual passamos nos primeiros anos de vida e que no máximo se estende até o fim de uma faculdade ou de um colégio, ou seja, ao fim do que se convencionou chamar de educação formal; e, apesar da educação formal que temos e tivemos, muitas vezes apenas perseguimos o conhecimento sem mais objetivos que não o de conhecer e ser mais fortes, mais seguros, como que aumentar nosso corpo que às vezes se sente pequeno perto de tanta coisa grande ou que aparenta grandeza por aí. E de fato não posso fugir da certeza de que algumas coisas ditas e vividas se entranham de tal modo em nossa carne que permanecem como um fundo comum de nossas ações, de nossos desejos, algo que vem de fora, e se fixa na carne, na pele, na cabeça, na fala, etc. Algo que, perigoso, determina o campo de extensão do que posso querer, as possibilidades, contudo não ao me mostrar que algumas coisas são inescapáveis, inevitáveis ou necessárias, não por mostrar como as coisas do mundo são grandes – o que por si pode ser visto desde sempre – mas por mostrar antes de tudo como sou pequeno e devem ser medidas por isso as coisas que desejo. A civilidade tem como um de seus fundamentos justamente a acomodação territorial e desejante de cada um, para que caibam todos, para que possam todos, mesmo que somente um pouco cada um.

O campo de extensão de cada um, contudo, varia em infinitos graus, em infinitos tons, sem decisões que possam harmonizar todos e cada um – a grande mentira de um processo que, formalmente, busca acomodar a todos no mesmo espaço de convivência, mas que reflete uma convicção cega de superioridade comparada, em outras palavras, pelo método mesmo que busca a minha inserção não conflitual e sistemática no mundo social – a educação formal – ganho certezas que me assimilam a uma massa e me distinguem, a mim e à massa, de muitos outros modos de ser aparentemente inconciliáveis: nesse sentido é que toda uma mitologia pode ser criada ao redor de uma cultura, de um modo de governo, de um hemisfério do planeta, de uma nacionalidade, de uma cor, de um modo de comércio, as configurações impostas se multiplicam na proporção dos interesses envolvidos. A educação que tive se filia a essa estrutura, digamos assim, na qual o semelhante e o diverso se confundem e nada dizem de concreto a respeito da semelhança que temos todos e da diversidade inerente a qualquer modo que venha a ser. Sobra sem resposta, atravessando como flecha as eras dos indivíduos, o que se quer de fato – e como saber isso quando o menu disponível decepciona, os pratos são poucos e disputados por muitos, por aqueles mesmos que durante todos os meus “anos de formação” foram-me passados como semelhantes – em relação a algum outro distante de um pais longínquo que desafia as leis da racionalidade ao ter um modo de ser outro, que desafiou nosso avós naquela guerra que todo ano é repassada e cobrada nos testes, que ao cabo tem sua maneira de viver justificada pelo simples: é a cultura dele. A “cultura”, nesse sentido, é signo de distanciamento inconciliável; meu primeiro rival, nesse caso, é o que senta ao meu lado no colégio, aquele que teoricamente a mim esta unido por laços que nos ultrapassam no tempo e na lógica e que compõe comigo a força própria à vida segura e estável que devemos manter.

Não por competir comigo em momentos específicos e concretos – vestibularzinho, vestibularzão, emprego – ele se torna meu rival, mas apenas o sendo posso ter com ele o meio de conviver conforme as configurações que me foram ensinadas desde sempre; somente quando somos rivais constituímos um ser – cada um – que pode ser digno de apreciação por quem há de nos apreciar até o ultimo momento da vida (ultrapassando mesmo esse momento, como apreciação de uma vida em seu conjunto), parceiros sexuais em potencial e em ato, professores, pais, biógrafos, bancas, financiadores, bancos, juizes, fiscais… de certo modo por via dessas apreciações temos determinados nossos quereres e mesmo a noção que muitas vezes vai-se ter até o fim da vida da individualidade própria.

Assim, fui educado a querer e a não querer as mesmas coisas, a amar (e cobiçar) e a ter ódio (e ter medo) pelas mesmas pessoas e coisas, com palavras, não afetos, com agressões, não gestos, por marcas, não através de minha imaginação. O tédio de ser “educado”, assim, prolongou-se – e se prolonga – na dúvida: não a dúvida que nos estimula, não à que pergunta às respostas, mas aquela que permanece mesmo hoje em meu (in)consciente: somos educados, todos, pra nos percebermos semelhantes ou distintos? Para concorrermos em potência ou para disputarmos por meio dos desejos singulares que cada um tem? Apesar de sermos educados, podemos perceber que os dois níveis não constituem uma oposição, podemos discernir que estamos no que chamo de nó, em que o indiferenciado apenas existe pelo encontro e entrelaçamento dos diferentes. O que mais, nesse processo de dualização que desde cedo me foi imposto, me transparece, é a realidade do distanciamento, que se manifesta, principalmente, em dois aspectos, quais sejam, primeiramente no distanciamento daquele que ensina, pela verticalidade com que me apresentaram sempre os ditos educadores – da escola ao esporte,e, seria desnecessário dizer, da igreja (arrepios!) – e, posteriormente, mas imanente ao primeiro distanciamento, aquele horizontal, que gradativamente estabeleceu os obstáculos entre meu corpo e os de quem “comungava” comigo do mesmo processo educacional. Mesmo assim, apesar de sermos “educados”, conseguimos construir e solidificar amizades desde cedo, por vezes atingindo se não a certeza – rara e muitas vezes falaciosa certeza – pelo menos a intuição de que é no nó que conseguimos constituir as atividades que merecem ser chamadas atividades, aquelas que alimentam meu desejo de existir e agir.

O distanciamento de primeiro tipo – espécie de transcendência expressa no poder e na autoridade – leva, inevitavelmente, por sua lógica interna, à sensação de saciedade que se pode encontrar somente na especialização, esta de vários tipos; não é simples, porém, desmascarar essa lógica e se desvencilhar dela, pois o que caracteriza qualquer lógica dominante é a apropriação contínua dos meios de combate a ela, de abarcamento até das lutas que originalmente visavam a desmoronar essa lógica. Tomo como exemplo a especialização política, que se expressa, por sua vez, em diversos níveis, dos quais podemos situar não mais do que alguns poucos: a profissionalização do político, o cerceamento do campo de extensão do conceito de política – nessa medida a política deixa de ser uma atividade passível de conceitualização e se torna uma profissão ou uma mera atividade assalariada -, além da especialização do local político: de certo modo, a especialização sempre vem acompanhada da espacialização, nesse caso especifico a espacialização do politico estabelece os locais legítimos de combate politico, as regras desse combate sendo formuladas e executadas e julgadas por ninguém menos que os especialistas políticos. Na mesma dimensão da espaço-especialização, até os movimentos de revolta são instrumentalizados e direcionados para seus devidos espaços, para que ajam somente em seu devido tempo, usando apenas os devidos meios de contestação. As lutas que conseguem escapar a esse estrito dimensionamento se encontram, me parece, nos nós existentes entre aqueles que ainda conseguem compreender (sentir e conhecer, como bem pode expressar o termo latino sciere) que as dimensões ainda estão para serem criadas, pois sempre o devem ser – o que, do ponto de vista do segundo distanciamento, o horizontal, implica a aproximação realmente afetiva entre aqueles que reconhecem na pluralidade desejante de todos e de cada a origem, o meio e o fim da vontade de estar-se vivo. Claro, mais uma vez, essa luta – desde pequenos somos levados a amortecer esse instinto pelo distanciamento horizontal – implica necessariamente não uma simples redimensionalização do posto, mas uma sempre renovada “desdeterminação” do que é determinado pela primeira espécie de distanciamento, esta, uma das primeiras e primárias formas de nos ensinarem quem manda, quem obedece, e a necessidade de que existam essas duas especializações. Em outras palavras, posso (tenho como) me revoltar e agir, apesar de ser educado. Raros são os movimentos coletivos, individuais e mesmo internos do corpo que expressam bem esse modo de anti-lógica da espaço-especialização, por isso, também, a extrema dificuldade de pensá-los hoje, de concebê-los em sua força própria, pois sempre mutante; não deixa de ser, claro, o exercício cotidiano o que propicia a real revolta, de certo modo como apenas o exercício propicia que o corpo se movimente da forma necessária para que um esporte seja praticado, um instrumento tocado, etc. Exercício, vale salientar, afetivo e intelectual, e nessa medida não sujeito tanto a regras mas à disciplina, uma disciplina.

Ainda no campo do distanciamento político, somos levados, geralmente, por meio de sua segunda expressão, a conferir legitimidade política apenas às uniões institucionalizadas, em outras palavras, a união que define o campo político se vê restrito às atividades partidárias ou de movimentos “legais”, cuja estrutura reproduz a verticalidade hierárquica dos partidos. Pergunto-me qual o afeto guia da união partidária, de modo mais geral mesmo… entre todas as diferentes orientações sempre resta a boa intenção, que, ingenuamente ou não, acata em si valores e deveres obscuros e unilaterais. Segue-se que entre mim e o outro não pode haver relação política senão estruturada na legitimidade instituída, e o que preenche todo esse espaço entre mim e o outro é como algodão, sem consistência mas volumoso, mas nada “legitimamente” politico. Que sigamos essa lógica – e é mais fácil para mim pensar que esse distanciamento e que a lógica que o perpassa são simultâneas, caso contrário teríamos que cair no primado do ovo ou da galinha – é de extrema importância para a manutenção das formas institucionais de política vigentes em nosso tempo, que em geral acabam mesmo por privilegiar modos de produção acumulativos e servem justamente de máquinas viabilizadoras desses modos de produção. Posso, pois, preencher os espaços entre mim e o outro com produtos e serviços, mediações técnicas e institucionais,etc.

O exemplo acima de distanciamento político pode ser percebido, igualmente em suas duas facetas, também na educação formal. Efeitos análogos da transcendência do político existem de tal forma nela que mascaram a imanência da educação à existência humana e, como tudo o que nos separa de nós mesmos, é algo que retira todo o prazer genuíno do ato simples e necessário de aprender e compartilhar. Pois, de forma bem marcante, a educação, quando admitida em toda a sua complexidade, exige a proximidade, a comunidade… lembro-me de um ancião Tule Kuna, na Colômbia, em entrevista, tentando esclarecer a necessidade de que suas crianças nunca deixassem de passar pelos momentos pedagógicos próprios de sua comunidade, pois ali estava o cerne da aliança espontânea que mantinha a comunidade unida entre si e todos ao meio que os cercava, a natureza em seu estado mais bruto, mais próximo de todos eles – e, mais forte, o ancião salientou que ter a educação dos “brancos”, como aos poucos já estava a ocorrer em sua comunidade, valia, sim, pois era mais um instrumento para que suas crianças pudessem lidar com o mundo, desde que tal educação nunca viesse sozinha, desacompanhada daquilo que de fato os unia. Essa proximidade, rompida pela verticalidade com a qual se apresenta desde sempre o professor, tem seus fins bem definidos, um deles, talvez o principal (ainda mais se pensamos que em casa na maioria das vezes estruturas semelhantes se reproduzem), seja o de introduzir desde cedo a consciência do espaço demarcado, autorizado, não estritamente espaço físico, claro, já que em todo esse processo dá-se – exteriormente e de forma fixa – o limite do espaço desejante de cada um, consequentemente pondo como inadequados afetos que não se enquadram na dinâmica interior desse espaço autorizado. A lógica que expressa e que é expressa desde os primeiros instante da vida letiva está para além dos muros da sala de aula, obviamente, está mesmo além dos muros do colégio, e não mais necessita de agentes físicos que comandem e ditem tais regras lógicas, os agentes sendo igualmente expressão dessa mesma lógica dominante de corpos, espaços e desejos. “Ensinar à criança o que é obedecer e a quem se deve obedecer” não deixou de ser o fim da educação dita formal, e, se de alguma forma o obedecer a alguém pode ser signo de liberdade – e pode, com certeza, em um nível outro que o da subserviência -, essa faceta é morta já nos primeiros anos de aprendizado, e não me admira que em certa época de minha vida o obedecer tenha de ter sido radicalmente negado, sinônimo que era de submissão, de castração, de inoperância de meus desejos mais profundos. Uma coisa leva a outra, e a revolta nunca acabaria, tampouco essas divagações.

A partir disso, a especialização não somente já está presente em sua verticalidade, como tem seu terreno continuamente preparado, um terreno arado pelas mãos que deveriam escavá-lo “desordenadamente” em busca de novos chãos, de novas perspectivas. A espacialização conjunta desse modo de especialização pode ser expressa na locução “lugar de aprender”, o que remete a lugares específicos coordenados por pessoas especificas e qualificadas na reprodução dessa configuração. Em vez de um ambiente de aprendizado, que não necessariamente exige pontos fixos de encontros e olhares fixos direcionados na mesma direção – em sua aparente desordem, as crianças que se aglomeram espontaneamente para brincar se educam e, sim, adultos podem e devem estar lá, pois apenas unilateralmente a idade e o conhecimento tornaram-se sinônimos de hierarquia -, lugares quadrados com cores mortas, atividades limitadíssimas, “cuidados” extremos, escolasticismos, etc. E esse lugar já prepara e desenvolve o distanciamento horizontal, no qual percebo quase toda a minha relação com o outro aluno sendo mediada por abstrações que se concretizam na submissão de todos, no medo comum, no tratamento da diferença como algo negativo, o que propicia até uma espécie de hierarquização entre os próprios alunos; como? Esse aspecto talvez seja o mais fácil de lembrar, mesmo que o mais difícil de descrever. Ela ia da quadra esportiva ao interior da sala, do patio à cantina; a revolta com a obrigação que nos unia a todos era mais descarregada sobre uns do que sobre outros, a depender do tamanho, da idade, das notas, da cor, do tipo de cabelo… motivos não faltam, arranjávamos o que mais estivesse à mão e o despejávamos, às vezes todos sobre a mesma cabeça… apesar disso, boas amizades surgiam e se manifestavam principalmente fora dali, num encontro paralelo, na praia, no quarto, no banheiro… apesar de toda aquela educação que tínhamos.

Não posso dizer que tais lógicas sejam paralelas, a política e a educacional, pois é preciso que elas se alimentem mutuamente, tornando a descrição acima mais expositiva do que concreta. Sem dúvida, uma das finalidades a que se propõe a educação, se assim posso me expressar, é a de preparar o homem para a vida política. O que ocorre, ao contrário, é a demarcação do político como campo especializado, principalmente no que diz respeito ao agir político; em nossa “democracia”, o ser político, ser-cidadão – a principio não há nada de errado com a etimologia desse termo – é ser representado, restando o voto como legítimo ato político; do mais, sempre podemos nos filiar a um partido e, se não nos contentarmos com quem nos representa, sermos nós mesmos representantes dos outros. A educação nos forneceu um campo político compartimentado, que mantém seu funcionamento e sua segurança pelo não extravasamento entre suas partes e, junto a isso, pelo não extravasamento de nenhum desejo individual – nem posso detalhar agora o quanto o direito age sistematicamente na contenção dos desejos e atividades de cada um, de tal maneira que nenhum encontro espontâneo venha a dar num desejo de autorrepresentação coletiva. Por baixo desse processo que une a educação que tivemos, a política que “praticamos” e o direito que os legitima, a última coisa que pode ser-nos ensinada é que somos necessariamente educados, pelas diversas vias que propiciam nossos corpos, nossas mentes, nossa convivência; que somos necessariamente seres políticos, que mesmo sem ter a consciência disso agimos dentro de uma coletividade que determina desejos e fazeres; e que por ato político não se pode entender somente o ato institucionalmente político, mas uma boa gama de atos afetivos, de atos diretos, de atos que ultrapassam o simbólico e o representativo se mantendo justamente aquém (e indo além) dessas instâncias.

Apesar de sermos educados, somos algumas vezes, alguns poucos e poucas vezes, capazes de discernir que a educação deve lapidar o desejo que necessariamente cada um tem de ser livre – ter autonomia para compreender o que é melhor para si, o que constitui a individualidade, o que constitui a comunidade, a diferença e de que indefinidas formas o diferente e o comum se enlaçam num nó, às vezes mais ou menos tenso, conforme o conflito seja mais ou menos indireto… o dever que menciono não aponta para nenhum outro lugar senão para a complexidade atual do desejo de cada indivíduo e para a complexidade atual envolvente de vários desejos em conjunto. Em termos mais diretos, em vez de retardar o desejo e a expansão de cada um, a educação, na medida em que esse conceito pode ser concretamente operativo, teria como necessidade funcional o incremento da individualidade, o conhecimento da mútua implicação entre individualidade e coletividade, sem compromissos institucionais de nenhuma espécie, pois entranhada à necessidade desejante de cada um. Esquecer é fundamental, lembrar tanto quanto. Mais do que lembrar, saber que o sentido é feito, atualizado, e quando dado é violento, triste, faz com que se acumule – então parece que se quer acumular mais do que capital – culpas de toda espécie, simultâneas ou imediatamente posteriores a esperanças de toda espécie, a deveres de toda espécie. Se somos provados a vida inteira, tendemos à morte sempre querendo provar algo.

Daniel

A Espera da Vida Pela Minha Morte

•31 31UTC agosto 31UTC 2010 • 1 Comentário

A vida, com todos os seus braços
Me agarra,
Joga-me no chão
& com braços mais fortes
Estica o meu
Enterra-me na veia uma agulha
Injeta-me doses letais de realidade
Ficando a espreitar pela minha morte
Sem saber do segredo que guardo:

Passando por mim desapercebida,
Desiludida & desencantada.

•16 16UTC julho 16UTC 2010 • 1 Comentário

Їn Ψenebris

A lua mal havia surgido & ele caminhava ao relento. Já não era mais homem. Animal não mais era. Tinha os ombros curtos, era baixo e duro. Seu andar era reto. Olhava para qualquer lugar, menos para cima. Ele tinha os passos pesados e rápidos. Pisava na água com força, abria caminhos na escuridão. Andava, de fato, com ódio. Cada passo seu desenhava na terra seu ar de sarcasmo, de desprezo pela vida. Nunca temera o fato de estar sempre só. Ele não tinha membros de carne, osso, sequer tinha vísceras. Era de uma completude precária. Nunca houve um só dia em que ele dormisse. O tempo todo encoberto por essas camadas que dificultam o corpo a se expressar. Por onde anda ele agora? Em que buraco mudo do mundo esse não-animal vive? Conhece ele, liberdade? Talvez, a única condição legítima de sua vida seja permitir-se apenas prisão. Todos são prisioneiros de algum entrave. Nunca houve liberdade, nunca fora possível amar, nunca um prazer efêmero fora sentido antes.

Era mesmo um caso bastante complexo para qualquer estudioso saber de onde viera esse estranho, estrangeiro de sua própria pátria, exilado em seu próprio ser, perdido no interior de uma linguagem outra. Uma vez ele disse que não há méritos em se ser seja lá o que for, desenhando a solidão, dançando balé, em seu quarto. Por isso sua vida passa-se assim como uma linha reta pelo indefinido. O que é permitido não é vivido e o que se vive não se deve permitir. O certo para ele é viver enterrado no erro de uma verdade suja, mas que seja uma verdade. A sua verdade é esse seu modo de encarar as coisas do mundo cru decrepitando. Na verdade, todos, de alguma forma, contribuem para a falência do sentido. Só vive em um mundo pleno quem tem a plenitude em si. Mas isso por aqui é extremamente raro. Que mundo é esse onde já não se vêem pessoas? É preciso renovar o que? O mundo? A linguagem? A imagem? Não. Esse caminho já fora antes trilhado. Fazer o que & como para mudar a mudança? É preciso aceitar a morte? Sim, é preciso atravessá-la, ir mais além… Lá onde o fantasma do pensamento acena ao homem da distância.

O dia mal havia terminado sem grandes fábulas, uma noite mais do que noite havia agarrado a terra e o pequeno cyborgue corria mundo afora sob uma chuva trevosa que lhe encharcava a alma de tédio. Não tinha onde dormir, mas não dormia na rua. Não tinha o que comer, mas também não precisava. A noite lhe atravessava de todos os lados. Sabia onde devia ir e sabia com quem falar. Mas não sabia que tudo, do início ao fim, para ele, seria negado. Desde o início a natureza luta contra ele, nega-lhe a significação do sentido, não lhe oferece sequer uma cifra, um detalhe. Agora caminha lentamente, lânguido e pálido, crispado e tenso na direção do mesmo contra o outro pelos labirintos do possível, nos rumores do indefinido… sempre a se enterrar no vale dos esquecidos.

Faz Tempo

•12 12UTC julho 12UTC 2010 • Deixe um comentário

Faz tempo

Esse som vem zunindo aquém dos sussurros e além dos suspiros
Até os ouvidos escutam as conversas entre as torres
Já atearam fogo nos pés da escuta silenciosa no meio da noite?
Onde crepitam idéias entre um beijo de lata e outro?
Os corpos não projetam sombras
Entre tantas palavras os homens vagueiam
E acabam descarregando tambores de bala no rosto da aurora quando surge a manhã

Vou escutar suas músicas até o fim
Venha dançar você também
E voar para bem distante do amanhecer

Vem, o meu grito vai dormir
Na falta surda que cala aos olhos ou à flor

Pascal

•6 06UTC julho 06UTC 2010 • Deixe um comentário

É compreensível que uma das principais imagens criadas para representar o mais profundo de nossa interioridade seja a de uma escuridão profunda, de um negro espesso como a noite num pântano, um lugar onde se tem dificuldade para respirar. Um lugar no qual predomina a ignorância, a solidão e, por que não dizer, o pecado. Pascal, um grande cristão, matemático insuperável, filósofo sutil, mesmo ele, quer dizer, principalmente ele, compôs em palavras quadros fantasmagóricos de nossa natureza mais íntima, de nossa verdade mais humana e solitária. Ele tinha de onde partir para enxergar essa natureza corrompida – ou aonde chegar, pelo menos: de lá, do além terra, além mar, além natureza, e, mais importante, além carne humana. Um homem que poderia inflar sua vaidade e ser propositalmente louco diante dos outros homens por sua genialidade necessitava se sentir ínfimo, desprezível, para que sua luz mesma pudesse finalmente resplandecer, com toda a dignidade que, mesmo se um dia não a teve, pelo menos a herdou em parte de uma época em que o homem ainda não pecara. Por isso fugimos dessa visão pela diversão e paliativos semelhantes… fugimos de nós mesmos.

Nossa ignorância, nesse caso, é castigo, e posso sempre tentar buscar uma redenção naquilo que me supera, que tem o poder para isso – o que, por si, foi visualizado das mais diversas formas, a religião institucional sendo, claro, um dos mais influentes e nefastos espectros com que temos convivido. Por outro lado, a ignorância de si mesmo e das coisas pode proporcionar espetáculos grotescos como o egocentrismo, ou como se chame a fixação de alguém em si próprio, “interioridade e exterioridade” (mais ou menos: como eu olho para mim mesmo e como os outros olham para mim mesmo); em maior ou menor grau, temos todos uma fixação por esse similar de ectoplasma que é o eu, sofremos por marcas que teriam sido deixadas nele e que às vezes são retomadas e retrabalhadas para sempre. É corrente por entre as bocas que permanecer muito em si mesmo pode tornar o mundo pesado, que se nos levamos demais a sério perdemos as melhores coisas da vida, que não somos nada se não estamos com os outros… e, como tudo tem uma causa, os clichês também. Eles recolocam problemas e soluções que nunca abandonaram o pensar humano, e se digo humano, não ocidental, ou outra especificidade qualquer, é porque já pressuponho aqui que tais perguntas e respostas têm formulações das mais diversas naturezas, com as mais diversas pretensões: seja se pergunto pela possibilidade do movimento, seja se busco a anulação dele enquanto desejo, pergunto por algum sentido das coisas que me façam compreender (ou ignorar mais alegremente) e desenrolar melhor minha vida e minhas conquistas. Nesse caso, quero dizer que mesmo minimamente formulado pela consciência e pela linguagem, o sentimento de que somos apenas em relação a algo maior nos faz tomar as mais contraditórias posturas, em muitas ocasiões assassinas umas das outras.

Ir além do próprio ego é, pois, uma espécie de diretriz múltipla para nossas vidas e de alguma maneira, em algum grau, condição para o mínimo de leveza na vida. O que vejo, como contrapeso disso, melhor, como subterrâneo a isso, que sempre está a cavar outras tocas, é o retorno do ego no cotidiano mesmo, nas relações mais banais que travamos, assim como nas mais relevantes: em outras palavras, o poder que tem de nos mover as imagens que temos de nós mesmos e que queremos que tenham ou não de nós é real, efetivo, sensível (caso nos esforcemos um mínimo para notá-lo), em maior ou menor grau, mas sempre denota ignorância, e uma que em geral tenta se suprir com ainda mais ignorância. No espectro negativo, ou seja, naquele que para mim mais disfarça a ignorância e mais a torna um peso é a contemporânea (sem um dia de nascimento específico), pela velocidade mesma de tudo o que nos atravessa, pela economia de mercado, pela imaginalização de tudo, pelo excesso de pessoas no mundo… etc – embora isso não seja resumo de uma tragédia, porque o homem continua homem em todas as suas nuances, das mais “vis” às mais “notáveis”, tanto que permanecemos políticos da mesma forma que permanecemos sexuados, apenas necessitamos disso. E como, desde sempre, até condição para a existência do ego, somos todos seres singulares – seres que, tomados por uma certa perspectiva, não podem ser reduzidos nem a um conhecimento completo nem a outra coisa qualquer  -, respondemos singularmente à questão: o que quero de mim mesmo? E o que quero vejo em mais alguém da forma que quero em mim? Trata-se, nesse caso, do molde que percebemos e fazemos do eu, e, em última instância, do molde do resto da matéria existente no planeta. Pois, antes de inserirmos qualquer cisão entre o que está em mim e o que está fora de mim, é do mesmo estofo que todos somos feitos, mesma matéria, tão sutil quanto ela possa ser. O que não deixa de ser interessante: na visão de mundo que distinguia o que é imutável – e se localizava no céu sua morada – e o que perece – ou o mundo sublunar, havia uma distinção essencial entre tais esferas que as tornava incomunicáveis do ponto de vista da causalidade que depois seria chamada de física. Para que algo de nossa interioridade e do que percebemos dela fossa realmente distinto do resto do que existe, uma parte pelo menos dela haveria que não poderia participar dos eventos que perpassam as coisas e a nós. Uma alma, um tipo particular de espírito, uma consciência tipo A, original e originária, um Eu real e independente, de fato, do que imaginamos dele, porque sujeito a (ou sujeito de) uma outra realidade exterior a nós. A partir disso, outros desdobramentos surgem e são incorporados de muitas outras formas.

E se esse eu não existe, como creio que não exista, o que podemos, repito, exigir de nós mesmos que sejamos, a que queremos que esse eu apenas imaginado, moldado em argila sempre úmida, corresponda? Quais finalidades acabamos por impor a ele? Admito que esses questionamentos, pelo menos como estão colocados aqui e sem um desenvolvimento detalhado, rebuscado, fundamentado, são reducionistas, por mais que em palavras eu ainda busque ressaltar multiplicidades. Só que um texto também é feito de argila úmida. Em outras ocasiões, lembro de focar alguns aspectos que me levam à fúria quando percebo o quão esse Eu é inventado por alguém que não sou eu, o quanto sou iludido todo dia nos menores sentidos que crio, ou melhor, penso criar, e me vem o sentimento de impotência em saber o que poderia ser esse eu que, já que não existe, tem de ser criado. Outras vezes, é possível que me encare com tal força que esse eu não seja nada além de puro gozo de uma força minha indescritível. Ainda em outras, uma mescla desses focos, sem respostas… em todas essas esferas, de uma forma ou de outra, é necessário que eu me saiba, principalmente me sinta, feito da mesma coisa de que o resto do “existir” é feito, sem que eu possa ser uma “interrupção” em toda a homogeneidade do que existe. O que me dá a singularidade, então, senão o fato de ser uma atividade específica, que processa o seu entorno – e se processa é porque são da mesma matéria – de um ponto específico que é só seu, comunicável porque é comum mas nunca o mesmo de outro? Em suma, a história dos meus afetos, todos, na ordem em que ocorreram e ocorrem, com essa conformação toda especifica, apenas diz respeito a mim, assim como pode ser dito da singularidade de todos. O mais difícil, porém, nunca foi reconhecer essa espécie de singularidade, pois, mesmo que venham a admiti-la em toda a sua mobilidade, talvez por isso mesmo sintam a vontade de procurar algo que nos defina diante de tudo o que é efêmero, que nos dê a dignidade merecida de um “ser humano”. Tal sentimento, o de que nada somos se não tivermos uma essência fixa, cujo suporte está além de nós, um sentido para o qual nossa excelência aponta, se não é o mais comum entre os homens, é o que mais cria razões para viver, para prosseguir, uma pátria, um povo, um deus, etc, algo que preencha nosso tempo. Assim, qual a força que poderia ter, como suporte de nossos sentidos, algo que tem como marca o devir e como finalidade…. nada?

A imagem de si não pode ser verdadeira na medida em que corresponda a algo de real, mas na medida em que é atual e nos faz tomar atitudes concretas. Na medida em que vai além da imagem de si e se torna querer para si, pois isso faz o ser humano ser movimento e vontade, morrer ou matar por algo. Só que, a partir de algumas configurações específicas, pode significar querer o impossível, o impossível de obedecer a deus, o impossível do amor, o impossível da saciedade, o impossível de algumas facetas da civilidade, e uma vida nunca espera até que cada um descubra o quão impossível são algumas de suas vontades. Alguns até parecem entrever a impossibilidade de suas ambições, mas por essa razão mesmo fazem o que for necessário antes que tudo acabe, exploram outros homens (um leque que vai da força de trabalho à fé), não sossegam até expandir ao máximo suas crenças, por estas destruindo a cabeça até dos próprios filhos. Com o passar do tempo e de uma história humana, as exigências feitas a cada um mudaram, tornaram-se gradualmente mais econômicas (bem, a quantidade de carcaças que um caçador leva para casa também são questão de economia…) e simultaneamente mais complexas: hoje, onde a maioria das coisas é apenas imaginada e nunca sabida ou vivida, exige-se, justamente, a melhor das formações, o melhor dos comportamentos (seria mais engraçada, se não chegasse a assustar, a enormidade de balelas morais que são pregadas atualmente), a melhor das mulheres, etc, etc. Quase nada é dado, repito, tudo é exigido, e pior, se crê – e logo se tenta resolvê-la – vastamente nessa exigência, ou pelo menos na legitimidade delas.

Essas questões levam, claro, a outras, contudo há um ponto específico em que essa complexidade é expressa no tempo, ou, pelo menos, nas noções que temos e podemos ter sobre o tempo. Se é possível impor que todos privilegiem uma determinada perspectiva de sua vida presente, digamos assim, é igualmente possível que determinem que perspectiva se tenha em relação ao passado próprio, e não menos ao futuro. Em outras palavras, quem tenta controlar nossa vida no presente, se vê obrigado a determinar as perspectivas que devemos ter de nosso passado (o singular, na figura de nossa história de vida, ou coletivo, nas figuras da história do país, na história geral, etc) e de nosso futuro, do que devemos produzir e fazer. Terapias e religiões são criadas em cima disso. Ao contrário disso, ou como alternativa de postura diante das coisas, há quem percebe o presente, senão como um campo aberto absolutamente, como absoluta possibilidades de aberturas, e assim pode incorporar seu passado e seu futuro à sua atividade atual, tal qual a construa dia a dia, entre altos e baixos. Só que acredito ver no passado uma coisa especial, nem precisaria complementar que especial no modo como tratamos o passado; pois, de certa forma, se o meu passado é o que me trouxe aqui, ele também não passa de um sintoma do que somos agora, porque sempre fui agora. Me pego dando atenção a vários aspectos do meu passado, que à simples lembrança me fazem rir ou me arrepiam os pelos, às vezes anos a fio sem nenhuma história a contar a não ser a de que eu estava ali; nunca vontade de estar ali novamente, nunca vontade de não ter estado ali. Porém nunca indiferença, a ponto de o que faço com ele ser determinante para que eu continue a fazer o que quero agora. A importância dessa relação com o vivido é par da importância que os afetos têm no que se entende por vida e, no caso a vida humana, a complexidade desses afetos é o que dá a sua consistência, sua profundidade, e é, com certeza, essa complexidade o único pano de fundo para qualquer valor que já foi ou venha a ser criado. Todo conhecimento de si, que seja possível e útil, nunca deixa de ser uma criação de si: a possibilidade de criar um mundo novo, um novo modo de se relacionar com as coisas, envolve simultaneamente a possibilidade da criação de si, e compreende as mesmas condições, quais sejam, paciência, alegria, coragem, desprezo por si e pelos outros, e a possibilidade, se convier, de transformar o desprezo em riso. E não poderia ser diferente, visto que conhecer a si mesmo e ao mundo constitui um mesmo processo.

Em que medida escolhemos privilegiar um gênero a outro de vivências? Nesse caso, direi eu, que a esses campos não cabe a medida, porque o instinto não suporta quantificação alguma… posso ir até o infinito, e sempre que encontrar um terreno específico pertencente à escolha, percebo por baixo já outro ato inconsciente, que me faz querer privilegiar isso e não aquilo. O que se abre, no mínimo, é a pergunta pela natureza dessa escolha que privilegia, e que ao fazê-lo esboça com cores cada vez mais fortes o quadro da singularidade; enfim, o conjunto do que privilegiamos na vida, em ato e não como princípios abstratos inúteis, é o que mais se aproxima de uma noção de personalidade. As questões da responsabilidade do eu só fazem sentido se colocadas em outros patamares, como a maneira de se exercer as forças individuais e coletivas (o que passa pelos interesses individuais e coletivos), por exemplo; ainda de outras maneiras, contudo bem longe do que mais estamos acostumados a fazer a milhares de séculos – entre pensamentos “orientais” e “ocidentais”, o cristianismo ainda é o principal avatar da responsabilidade destrutiva, principalmente se pensamos que muitas de suas nuances hoje nem se apresentam mais como cristianismo. Alguns resquícios de um eu culpado cristão pulam às vezes de mim e saltitam na minha frente, quando antes eu nem os percebia.

São as coisas fora de nós, que lá estiveram ou lá ainda estão, que nos asseguram nossa própria existência – não porque nada em nós nunca remeta a nós próprios, mas porque, a fundo, não existe essa separação, porque o alcance do nossos gestos se dão através de sua força e não de sua pele, porque talvez se pode, enfim, dar um passo maior que as pernas.

Daniel.

Configurações

•7 07UTC abril 07UTC 2009 • Deixe um comentário

Inúmeras são as paixões humanas, nem podemos mesmo identificá-las e rotulá-las uma a uma: mais que impossível, esse trabalho é inútil. Inútil porque, no fim das contas, o que serve para expressar linguisticamente um estado qualquer de uma pessoa, de um ser humano singular, não dá conta da complexidade alheia, da complexidade do corpo alheio e de suas experiências, nem no suposto caso de um “sujeito límpido” que se dobra sobre si mesmo e reflete sobre suas paixões.

Caso assim seja, poderíamos propriamente falar em paixões humanas? Com que direito atribuiríamos a alguém medo, inveja… com que razão lutaríamos contra quem vemos ser dominado pela ambição desenfreada? Então, creio, talvez, pelo menos em algumas das estações do pensamento podemos (e talvez devemos) procurar entender o que há de comum nos nossos corpos, na linguagem que nasce dele e naturalmente nas paixões que nos atravessam a cada milésimo de segundo. Podemos discursar sobre elas, e mais, podemos (e devemos?) usar esse discursos como armas de combate. Contra quem? (O certo é que organizamos não apenas pensamentos, mas o filtro de educação de uma pessoa envolve um arranjo do que sentimos, envolve que formulemos estratégias para conseguirmos sentir algo proposto de alguma forma; por mais que se trate de formas praticamente infinitas, ninguém consegue escapar da bacia comunicante de uma cultura, uma comunidade, uma civilização).

Quando me refiro a uma das estações do pensamento, apenas uso essa figura porque concebo que o poder da coerência alcança o campo da singularização extrema, da redução singularista radical; mais além, posso conceber o discurso a procura de seu próprio aniquilamento – se o consegue, claro que não podemos mais ouvi-lo -, da nadificação, ontológica, existencial, seja lá que diabos for. Assim, em casos extremos, viver já é trair a própria vida.

À parte do que podem muitos chamar de fraqueza – inclusa uma crítica pretensamente política de que a apatia niilista é conivente, de que ela é uma “alienação” – do niilismo, ou de impossibilidade concreta deste, o fato é que sempre podemos “brincar” com nossos pensamentos, testá-los, defendê-los, sem que dirijamos a ele a crença e a convicção. Evoco isso muito a título de testemunho, porquanto fui trazido até aqui, a essas linhas, por alguns caminhos que do nada saíram e ao nada levaram, “graças a Deus”. Quando desaprendi a crer em tudo, no momento que o nada se tornava para mim tão distante da tristeza como da alegria, pas d’affects, foi aí que tive minha primeira espécie de certeza, meu primeiro cogito de natal. Bem, retornando, isso só se estamos seguros de uma coisa: somos livres – não para escolhermos o que pensar, sim para cultivar o descompromisso real diante daquilo que está posto como realidade.

O combate, nesse sentido, creio, não precisa ser contra ( como assim?!) nem a favor (lascou!), da mesma forma que nosso corpo não existe nem contra nem a favor de nada; os “amigos” e “inimigos” que nosso corpo encontra ao correr de sua existência não são absolutamente nada em si, senão engendrados enquanto tais por uma configuração que ao extremo nos escapa e, por outro lado, por personas que dificilmente podem ser identificadas. Claro, sou o primeiro a defender que podemos (e devemos!) destruir várias coisas e pessoas – “Estado”, “miséria”, idiotas arrogantes e inaptos, etc. – mas não porque são “inimigos”, simplesmente porque engendram uma configuração que inibe nossa existência. É nessa configuração prismática – pois se difunde em inúmeros e indefinidos matizes – que se impõe a existência de “inimigos” e cria a imagem do poder de cada um como negação do outro, a certeza de cada um como a constatação da falsidade de outrem. No outro extremo, tal – tais, na verdade – configuração é que delineia a negação absoluta do poder, de forma geral ou específica, como algo a ser alcançado… pelo poder.

Não podemos (e não devemos) dar conta aqui de descrevermos todas as configurações prismáticas que impõem conteúdos a nossos pensamentos e necessidades a nossos corpos – felizmente, desde que o “pensamento pensa a si mesmo e ao corpo” há quem se dedique a esmigalhar e a tentar desmascarar os conteúdos e necessidades que só se tornam reais pelo pathos violento – este, por sua vez, está implicado em todas essas configurações que inibem nossa simples (não medíocre) existência; assim se pode causar fome – porque se impõem determinados modos de apropriação como certos -, a tristeza (a fome, a solidão, o medo causam tristeza), ódio, inveja, etc.

A estação em que podemos (e agora sei, devemos) descer todos em e por algum momento propicia justamente pensar como é possível que dominem e direcionem nossos afetos e nossas paixões a partir daquilo que temos de mais comum: justamente a necessidade de sermos afetados por aquilo que nos rodeia. Insisto que não se trata de reconhecer inimigos – nem amigos, pode ser tão perigoso quanto -  apenas porque estes podem desviar toda a energia que temos para simplesmente existir – padecer de nossos próprios padecimentos e engendrar nossas próprias configurações, não a sós, claro, mas sem imposições, naquilo que é uma das coisas que podemos ter de mais espontâneo, a vontade ininterrupta de existir, existir bem e juntos.

Logicamente há de se pensar o indivíduo e suas possíveis articulações livres, como também pensar o corpo naquilo que o integra a seu ambiente. Perguntas antigas voltam, pois, à tona: o que é o poder individual (para que possamos repensar que tratamento merece seu exercício)? O que quer o corpo diante das inúmeras possibilidades de exercer seu poder? Para que dominar – impor vontades e necessidades – a outros corpos?

Entrar na dimensão do básico, do vital, pode ser interessante e de fato o é, porém o básico e o vital não são o simples; este está condicionado, queiramos ou não, a planos de configuração que não são os mesmo desde a Grécia antiga até nossos dias. Vários maniqueísmos e crenças perderam sua força efetiva, ao passo que novos costumes e novas articulações técnicas preenchem espaços culturais, políticos, sociais e afetivos que hoje determinam nossos problemas – não podemos desprezar, por exemplo, que a sanidade de nosso corpo está cada vez mais sujeita à falta de oxigênio e de água; que a autonomia material de cada indivíduo nunca foi tão complicada, e por aí vai.

Mesmo assim permanece o corpo como poder de existir e de agir e persistem os apetites como algo bastante manipulável. Antes a morte, posso afirmar, a ser dominado. Mas até onde consigo reter o que é de fato ser livre? Até onde consigo ter a consciência do que é a simplicidade? Sem dúvida, a complexificação da técnica humana e de suas configurações derruba mitos, mas a criação de outros a partir disso vem nos indicar que a individualidade humana e seu poder ainda estão para ser entendidos – na verdade, talvez isso indique mais uma necessidade urgente de repensarmos esse conceito e, consequentemente, o de liberdade e poder. Arrisco dizer que o homem nunca foi tão submisso, a humanidade um “rebanho sem pastores”, que o medo e o conformismo nunca estiveram tão espalhados pela face da Terra. De fato, não hesitamos – nós, não simplesmente este ou aquele – em acolher os inimigos que nos impõem, e cada vez mais esquecemos que somos apenas um corpo – plural em si, mas um corpo – que no fundo não exige nada demais, e parece que quanto mais exigimos, mais infelizes somos, quanto mais infelizes somos, mais difundimos a tristeza, a apatia, a timidez, o medo… para notar isso, olho ao meu redor e vejo lugares e pessoas com um poder imenso de se afetar de alegria simplesmente abrirem mão disso, e acredito que sem saberem por quê. Vejo pessoas abrirem mão de momentos simples e realmente felizes (assumo sem problemas que o real é o presente) em prol de configurações individuais que são qualquer coisa, menos individuais e, pior ainda, nunca serão satisfatórias.

Bem podemos ver que o múltiplo – aparentemente irreconciliável – do primeiro parágrafo não contradiz o uno que fundamento um entendimento e um discurso sobre as paixões humanas, e aqui sou apenas mais um. A tentativa de homogeneização é uma das configurações prismáticas mais nocivas, pois é uma apropriação do exercício – e do conceito – de poder que distorce tudo o que podemos (e devemos)  entender por poder – na medida em que resume a força desse conceito e desse exercício a uma espécie de transcendência da dominação –; o Estado, a meu ver, sempre foi e sempre será dominação dos corpos individuais e delimitação rígida da capacidade criativa – enquanto lúdica – do indivíduo humano, esteja este só ou não. Assim, também são, a partir de feixes que se cruzam, as religiões, a Moral e qualquer gerador de configurações que dissociem a unidade e a multiplicidade da afetividade humana.

Daniel

 

 

               

 
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